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2020-06-02 | Lançamento: Spacex e NASA abrem nova era na corrida espacial


O feito histórico aconteceu neste sábado, 30 de Maio, com o lançamento do foguete Falcon 9, a partir do Centro Espacial John F. Kennedy, no Cabo Canaveral, Flórida (EUA), levando a bordo a nave espacial tripulada Dragon Crew com dois astronautas da Nasa, Douglas Hurley e Robert Behnken, na primeira missão tripulada da agência espacial americana para a Estação Espacial Internacional (ISS) nos últimos nove anos.

O lançamento, uma parceria entre a Nasa e a Spacex, do empresário de origem Sul-Africana Elon Musk, tinha sido cancelado na última quarta-feira por causa das más condições meteorológicas. Finalmente sábado, as 15 horas e 22 minutos (20h22 em Angola) do dia 30 de Maio de 2020, aconteceu a abertura de uma nova página na corrida espacial com a partida do Dragon Crew com dois astronautas a bordo.

Para a SpaceX, o lançamento representa o teste final de voo do sistema de transporte antes de ser certificado para vôos regulares transportando astronautas no âmbito do Programa de Tripulações Comerciais da NASA. [1]

O foguete Falcon 9 desacoplou com sucesso a cápsula que levava os astronautas poucos minutos após o lançamento e voltou para a base, desembarcando num dos navios da SpaceX na costa da Flórida no Atlântico. A cápsula Dragon Crew seguiu em direcção à ISS.

 

Trajectória da Dragon Crew até a ISS

 

Embora a distância entre a Terra e a Estação Espacial Internacional seja apenas de 400 km, o trajecto durou aproximadamente 19 horas o que deixou algumas pessoas desentendidas nessa matéria bastante confusas, uma vez que notaram que o foguete atingiu velocidades que rondavam a milhares de quilómetros por hora. O que tem de errado aqui?

Está tudo certo, a viagem não é em linha recta, como um elevador! Tratando-se de dois objectos em velocidades muito altas em torno de 27.885 km/h (7,66 km/s), quase 30 vezes mais que um avião comercial, que um terá de encontrar o outro e depois juntar-se ou acoplar-se estando em alta velocidade, isto requer extrema precisão e pode levar muitas horas ou em alguns casos dias para se concluir. [2]

Primeiramente a cápsula foi colocada em uma órbita ligeiramente mais baixa e com uma velocidade maior em relação a ISS, isso aconteceu a 12 minutos após o lançamento.

De seguida, de modos também a verificar os subsistemas da cápsula, voltou-se a efectuar cálculos para definir o melhor ponto de aproximação devido a pequenas alterações na trajectória, na altitude, velocidade, a mesma fica dando voltas a terra e cada volta durou aproximadamente 86 minutos.

No entanto, a cápsula ficou mais rápida que a ISS que leva 93 minutos para dar a volta a terra, e fez-se uma mudança de órbita o que é chamado de transferência de Hohmann para a altitude exacta da ISS (depois de todos os cálculos feitos). Ficando a cápsula a frente da ISS, precisou-se apenas activar os motores para reduzir a velocidade, fazer um giro de 180 graus e apontar para a ISS, abrindo assim uma linha de vista directa com a ISS facilitando a aproximação meticulosa.

Finalmente, já muito perto da estação houve o ajustamento dos eixos (x,y,z) da cápsula com a ISS e as 15:16 de domingo (hora de Angola) a Spacex completou o seu primeiro voo tripulado da história, quando a cápsula espacial Dragon acoplou com sucesso, foi pressurizada e os astronautas entraram no laboratório internacional espacial, onde cumprirão missão oficial até Agosto.

Contas feitas, 12 voltas a terra são cerca de 1032 minutos e aproximadamente 17 horas. 

 

Fim da dependência da Rússia

 

Vale recordar que este é o primeiro lançamento em solo americano nos últimos nove anos. Para enviar os seus astronautas à ISS, a NASA (EUA), ESA (Europa) e AJAX (Japão), por exemplo, dependiam da Roscosmos (Rússia).

Até então, a única opção de se chegar à ISS para os astronautas americanos, russos, europeus e japoneses era a bordo da nave russa espacial Soyuz, lançada, habitualmente, a partir da base russa de Baikonour no Cazaquistão, após um período de treinamento dos astronautas na Cidade das Estrelas, perto de Moscovo.

A agência espacial dos Estados Unidos (NASA) pagava cerca de 86 milhões de dólares por voo para cada astronauta na Souyz. A transferência deste montante dependia da autorização do Congresso americano e era justificada como operações indispensáveis para futuras missões no espaço. [3]

Neste contexto, os russos começam a perder o apoio financeiro e técnico que vinha dos EUA, por exemplo, para comunicação e fornecimento de material.

Em entrevista ao Observador, o cientista-astronauta português Rui Moura, considerou que o sucesso desta missão “terá certamente alguns impactos económicos para a Roscosmos” visto que “significa um custo por tripulante que baixou de cerca de 86 milhões de dólares para 55 milhões”. [4]

Fica claro que os russos estão a beira de perder a exclusividade do mercado de envio de astronautas ao espaço, mas ainda este domingo a Roscosmos chegou a elogiar a missão conjunta da SpaceX e da NASA por apresentar-se uma alternativa importante de transporte que garante a presença de tripulações a bordo da Estação Espacial Internacional”, disse Vladimir Ustimenko, o porta-voz da agência.

Desde domingo 31 de Maio de 2020, os astronautas estão na Estação Espacial Internacional com um americano e dois cosmonautas russos. A primeira fase da missão da SpaceX está completa.

 
Autor:

  • Dr. Gilberto Gomes, Responsável do Departamento de Ciências Espaciais e Pesquisa Aplicada.

 

Referências

 Foguete da SpaceX é lançado na Flórida em 1ª missão tripulada a partir dos EUA em 9 anos

 Crew Dragon atracou na ISS com sucesso depois de 19 h. Por que tanto tempo?

 Sem opções, EUA e Europa dependem da Rússia para ir ao espaço

 Os atritos com a Rússia, a morte da Estação Espacial e a ascensão da SpaceX. A missão comentada por especialistas portugueses