Custódio Diengue Abílio

Especialista da Área de Suporte e Navegação Balística do MCC

Mercado dos veículos lançadores de satélites


Nos últimos anos as órbitas que mais têm significância histórica no mercado de veículos de lançamentos espacial (em inglês, LV – Launch Vehicle), são as órbitas Geostacionária (GEO), Média (MEO) e Baixa (LEO).

O mercado de LV para Órbita Média e Baixa, tem sido dinamizados pela nova tendência que consiste em lançamento de vários satélites de comunicação em órbita LEO para formação de grandes constelações de comunicação em banda larga e de vários satélites de navegação em órbita MEO para grandes constelações com o mesmo propósito. Para citar algumas, na LEO temos as constelações da Telesat (Canadá, 298 satélites), SpaceX “Starlink” (Estados Unidos, 2000 satélites) e OneWeb (Reino Unido, 648 satélites), e na MEO temos as constelações de navegação como: GPS (Estados Unidos, 27 satélites em órbita), GLONASS (Rússia, 28 satélites em órbita), BeiDou (China, 35 satélites em órbita) e Galileu (Europa, prevê 30 satélites em órbita).

A ‘SpaceX’, gigante americana emergente no mercado, hoje lidera os preços baixos e atractivos do mercado de LV, com o seu lançador Falcon 9.

Para liderar o mercado é preciso fazer um investimento inteligente e disciplinado no sector, colocando em perspectiva as tendências futurísticas e apostando no desenvolvimento durável.

Os operadores do mercado de lançadores investiram e continuam a investir. Mas infelizmente em alguns casos, os resultados tangíveis de colocar no mercado, lançadores com preços baixos do padrão com a produção de lançadores mais económicos, estão aquém do esperado por vários motivos, tais como: tecnológicos e humano, corrupção e má gestão dos recursos disponibilizados, bloqueios tecnológicos e interferência política, desenvolvimento tecnológico desajustado com a realidade actual e insuficiência de investimento no sector.

Nos motivos supracitados, para o caso de corrupção e má gestão dos recursos disponibilizados, há evidências da existência de alguns no sector.

O bloqueio tecnológico e a interferência política têm inibido o avanço tecnológico e a implementação de muitos projectos. O departamento de Estado Americano, condenou as empresas chinesas por exportar tecnologias de mísseis listados na Categoria II do Anexo MTCR (Missile Technology Export Control Regime). As penalidades para a exportação de tais equipamentos, proíbem a obtenção de licenças de exportação para satélites e seus componentes. Portanto, há proibição da exportação de satélites americanos ou contendo componentes americanos para a China. A China não pode importar satélites ou realizar lançamento no veículo lançador Long March, seja para uso por entidades chinesas ou em nome de um cliente estrangeiro que contenham componentes americanos. Os satélites não americanos estão em causa, pois na maioria das vezes contêm componentes americanos cuja reexportação para a China é proibida [1].

Algumas empresas russas no sector de lançadores espaciais não podem comprar e nem vender determinados equipamentos nos Estados Unidos da América (EUA), também devidas as sanções impostas pelos EUA e União Europeia.

Em relação ao desenvolvimento tecnológico desajustado com a realidade actual e insuficiência de investimento no sector, todos os operadores ou países não investem proporcionalmente da mesma forma e/ou na mesma direcção.

Mas de forma geral, de acordo com o relatório da Euroconsult de 2019 relativamente aos programas espaciais dos governos, os orçamentos espaciais dos governos totalizaram 70,9 bilhões de dólares em 2018, apresentando uma taxa de crescimento anual composta de cinco anos de 5,75%. Olhando para o futuro, na próxima década, os orçamentos espaciais mundiais devem continuar sua tendência de crescimento no médio prazo, atingindo um pico estimado de 84,6 bilhões de dólares em 2024 [2].

Ao nos referirmos do investimento, incluímos, o investimento ligado a formação e capacitação de quadros, infraestruturas e novas tecnologias que satisfazem as necessidades actuais e vindouras. A título de exemplo, a SpaceX apostou na reutilização do primeiro estágio, tendo feito a primeira reutilização no lançamento da missão SES-10 do voo 32 com o booster (impulsionador) do primeiro estágio B1021 ocorrido no dia 30 de Março de 2017, após recuperação do primeiro estágio no dia 08 de Abril de 2016 que serviu para o lançamento da cápsula Dragon durante a missão CRS-8. O B1049 foi o primeiro booster recuperado 7 vezes, a sétima vez, ocorreu no dia 25 de Novembro de 2020, recordes alcançados nas missões SmallSat Express e de lançamento de satélites Starlink. Desde 2018 a SpaceX vem fazendo experimentos para recuperar o fairing (carenagem). O navio Ms. Tree pegou pela primeira vez com sucesso a metade de uma carenagem descendente em sua grande rede no dia 25 de Junho de 2019, e em 20 de Julho de 2020, ambas as metades da carenagem foram capturadas com sucesso pela primeira vez por ambos os navios durante a missão Anasis-2.

Segundo a SpaceX o custo da carenagem completa para as missões Falcon Heavy está em torno de 6 milhões de dólares e recuperar pelo menos metade da peça, representa uma economia de 3 milhões de dólares.

O objectivo da SpaceX é de fornecer lançador que permite baixar consideravelmente o preço da colocação em órbita, graças a reutilização de estágios e a custos de fabricação moderados. O primeiro estágio do Falcon 9 representa 75% do custo global do lançador. O Falcon 9 é o primeiro lançador desenvolvido por um operador privado com uma potência considerável, todos os componentes do motor e aviónicos foram especificamente concebidas pela SpaceX, fabricando internamente cerca de 70% dos componentes do seu laçador num sítio único em Hawthorne, Califórnia. Geralmente no mercado de lançadores de satélites, opta-se por montar componentes existentes no mercado.

Desde 2017 os custos de lançamento dos seus principais veículos lançadores, o Falcon 9 e o Falcon Heavy, são respectivamente 50 milhões de dólares e 90 milhões de dólares, e o veículo lançador Ariane 5 da Arianespace, Ariane Group, sua principal concorrente nesse mercado, custa 137 milhões de dólares.

Apesar da reestruturação da ULA (United Launch Alliance), operadora americana no mercado de lançadores, ter iniciado um programa em 2014 para diminuição de custos de lançamento pela metade. Enquanto o valor padrão do lançador Atlas V era de 125 milhões de dólares, o lançamento espacial mais barato da ULA no início de 2018 permaneceu o Atlas V 401 a um preço de aproximadamente 109 milhões de dólares, fazendo uma economia de 16 milhões de dólares. 

Recentemente, a Roscosmos assinou um contracto para o desenvolvimento do foguete espacial Amur-SPG junto da empresa Progress Rocket Space Centre, responsável pelo desenvolvimento do veículo Soyuz. O estágio reutilizável do novo foguete Amur e os seus motores a metano estão inicialmente programados para 10 utilizações, mas está já planeado o lançamento do primeiro estágio até 100 vezes. Será lançado no cosmódromo de Vostochny. O preço do serviço de lançamento deverá ficar por volta dos 22 milhões de dólares, e o lançamento está programado para 2026. Um dos objectivos dos lançadores reutilizáveis russos é de baixar o custo de lançamento com os seus LVs para 30%. Actualmente, o lançamento com a Soyuz para LEO e GEO é a partir de 30 e 80 milhões de dólares respectivamente, e com o Proton é a partir de 65 milhões de dólares.

A Arianespace prevê reduzir o custo de lançamento na ordem dos 40% com o lançador Ariane 6, substituto do Ariane 5. O Ariane 6, estaria 100% operacional no verão de 2020 de acordo com o cronograma afixado em 2014 no início do programa de desenvolvimento, mas segundo as explicações de Stefano Bianchi, Chefe de Desenvolvimento de Transporte Espacial da ESA, o impacto da crise sanitária causada pela Covid-19 e as dificuldades técnicas imprevistas retardaram o progresso do programa. A nova data do primeiro lançamento comercial do Ariane 6, foi fixada para o segundo trimestre de 2022.

Outro projecto de redução de custos do Ariane Group é Adeline, um conceito inteligente que prevê a recuperação da parte inferior do lançador, ou seja, o motor, o compartimento de propulsão e a aviónica. Isto demonstra que a reutilização dos componentes do veículo lançador é uma preocupação dos operadores do sector.

A maior parte dos lançamentos efectuados com a Long-March 3, têm sido institucionais, o custo de lançamento com a Long-March 3 é a partir de 60 milhões de dólares.

Para se ter alguma noção do número de lançamentos efectuados, de 01 de Janeiro de 2018 a 06 de Dezembro de 2020, o Falcon 9 lidera com 55 lançamentos, e os outros lançadores seleccionados em número de lançamentos neste período são: Soyuz com 44, Long March 3 com 33, Electron com 15, Ariane 5 com 13, Atlas V com 12, PSLV com 10, Kuaizhou com 9, H-II A com 6 e Proton com 6 lançamentos.

Os dados analisados neste período, realmente, indicam a liderança do lançador Falcon 9 no mercado, porém a situação delicada que a SpaceX enfrenta, devido o volumoso caderno de encomendas que ela tem, causando atrasos importantes em relação ao calendário de lançamentos acordado com os clientes, gerando oportunidade para as operadoras criarem parcerias que tornariam o mercado mais acessível. Neste mercado, pese embora restrito, mas ninguém trabalha sozinho.

Algumas práticas entre os concorrentes fazem diferença, dentre as quais: ter bons parceiros no negócio; o aprimoramento da política específica para as diferentes actividades, desde a definição do caderno de encargo até ao lançamento do satélite pautando nas boas práticas do sector; a boa definição das metas; a optimização e o uso correcto do orçamento de cada actividade; o investimento adequado na Pesquisa & Desenvolvimento de novas tecnologias, ferramentas e produtos; e a boa governança.

O mercado global de lançamento de satélites totalizou de 2007 a 2018 um facturamento médio equivalente a 6,5 bilhões de dólares por ano, dos quais, cerca de 62% foram contractos de lançamento de satélites de órbita geoestacionária, 30% de lançamento de órbita baixa, e remanescente para os lançamentos de órbita média [3].

Em 2019, este mercado teve um crescimento na ordem de 52% em relação ao facturamento médio do período supracitado, ou seja, um facturamento de 9,88 bilhões de dólares e as previsões ainda são melhores, visto que os indicadores apontam para um facturamento global de lançamento de satélites de 32,41 bilhões de dólares de 2020 a 2027 [4].

Em suma, este é um mercado que vai continuar a facturar bilhões de dólares, apesar do fraco crescimento económico mundial causado pela pandemia Covid-19. O mundo não deixou de utilizar as tecnologias de comunicação, antes pelo contrário, houve um aumento na demanda das ditas tecnologias. A título de exemplo, com o slogan “FICA EM CASA”, algumas pessoas foram obrigadas a recorrer ao teletrabalho em casa. Também não se deve esquecer que o homem é um explorador por natureza, e nunca desistiu do ambicioso projecto de exploração do planeta vermelho (Marte), e da construção de uma base na Lua, que poderá servir como um dos pontos logístico para viagens interplanetárias.

Assim sendo, haverá sempre necessidades maiores de se fazer um lançamento de uma missão espacial, sem contar com o retorno dos investimentos a curto prazo, a capacitação de recursos humanos capazes de desenvolver o tecido industrial de um país, os benefícios directos e indirectos das aplicações espaciais e o factor estratégico para o futuro de um país.

REFERÊNCIAS:

[1]https://www.ifri.org/sites/default/files/atoms/files/usdefichinoislnmesserlin0604.pdf (consultado online dia 08/12/2020);

[2] https://spacenews.com/op-ed-global-government-space-budgets-continues-multiyear-rebound/ (consultado online dia 09/12/2020);

 [3] https://brazilianspace.blogspot.com/2019/05/mercado-mundial-de-lancamento-de.html (consultado online dia 06/11/2020);

[4] https://www.alliedmarketresearch.com/space-launch-services-market (consultado online dia 06/11/2020).


AUTOR:

Custódio Diengue Abílio

Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial e Licenciado em Mecânica pela Universidade Hassan 1, Marrocos.

Especialista da Área de Suporte e Navegação Balística do Centro de Controlo e Missão de Satélites.