Massala Samuel Nsungani

Director da Área de Planeamento de Voo do Centro de Controlo e Missão de Satélites da Funda

Aplicações espaciais com recurso a dados meteorológicos para o combate à malária em Angola


A malária é uma doença causada por um protozoário do género Plasmodium, transmitida pelo mosquito do género Anopheles. Após a picada do insecto, o parasita chega ao fígado e multiplica-se rapidamente.

A malária é uma doença característica de regiões tropicais e a sua transmissão está intrinsecamente ligada ao mosquito e às condições ambientais e atmosféricas que favorecem a reprodução dos mesmos. As águas resultante das quedas pluviométricas, proporcionam condições propícias e favoráveis  para a reprodução ou colocação de ovos dos mosquitos. 

Em Angola, a malária é um dos principais problemas de saúde pública e continua sendo a principal causa de morbidade e mortalidade mesmo em tempo da pandemia da covid-19. 

Segundo dados do Inquérito de Indicadores Múltiplos e de Saúde do Instituto Nacional de Estatística e do relatório do Ministério da Saúde, a malária é a principal causa da procura dos serviços de saúde, de absentismo laboral e escolar, de aborto, do nascimento prematuro, do baixo peso à nascença, de anemia em ambas mulheres grávidas e crianças. Em Angola, a malária representa cerca de 35% da procura de cuidados curativos, 35% da mortalidade infantil, 40% da mortalidade pré-natal, 25% da morbilidade materna e causa 60% dos internamentos hospitalares em crianças menores de cinco anos de idade e 10% das admissões de mulheres grávidas em hospitais (cuja imunidade é reduzida). 

De acordo aos níveis de endemicidade a malária é endémica nas 18 províncias do país e a sua transmissão não é homogênea ao longo do território nacional, sendo as zonas rurais as mais afectadas devido ao baixo nível de saneamento básico e aos escassos recursos financeiros para a aquisição de redes mosquiteiras tratadas com insecticidas. 

A taxa de transmissão divide o país em três diferentes zonas de risco ou endemicidade: 

  • Hiper-endémica, nas áreas onde os níveis de transmissão são intensos e compreende as províncias nortenhas de Cabinda, Uíge, Malange, Kuanza Norte, Lunda Norte e Lunda Sul;
  • Meso-endémica Estável, nas áreas de transmissão moderada onde a ocorrência é estável durante o ano e compreende maioritariamente a região centro e parte da região norte, nomeadamente as províncias de Luanda, Huambo, Zaire, Bengo, Cuanza Sul, Benguela, Bié e Moxico;
  • Meso-endémica Instável, nas áreas de baixa transmissão durante a estação chuvosa e compreende a região sul de Angola, Namibe, Cunene, Huíla e Cuando Cubango. 

Os mosquitos florescem em condições quentes e húmidas ou seja em clima tropical. Na maioria das vezes, suas picadas são apenas um incómodo, mas podem espalhar doenças prejudiciais aos seres humanos, como malária ou paludismo, Zika etc. 

O clima tropical ocorre nas regiões situadas entre os trópicos de câncer e de capricórnios (de que Angola faz parte), e é caracterizado por um clima quente e húmido, favorável para a disseminação dos vectores de doença, em sua maioria insectos que encontram um habitat ideal nessas zonas devido aos charcos de água resultantes das quedas pluviométricas e saneamento básico precário. 

A malária pode ser encontrada onde e quando as condições climáticas são favoráveis à transmissão entre o vector mosquito e seu hospedeiro humano. As características sazonais do clima têm uma relação significativa com a distribuição sazonal da doença onde os esforços para o controlo não têm sucesso. 

Em países onde as medidas de controlo são inadequadas como é o caso de Angola, a distribuição da doença é fortemente ligada aos padrões climáticos e às condições ambientais. Nota-se em Angola um aumento de transmissão durante a estação das chuvas, com um pico entre os meses de Janeiro e Maio. 

Nos dias de hoje e graças aos dados fornecidos por satélites (como os de meteorologia) e estações terrenas de medição e com recurso à ciência de dados (do inglês Data Science) é possível desenvolver aplicações que mapeiam e apresentam o número de meses e as zonas durante um determinado ano nos quais as condições para a transmissão da malária são favoráveis. Estas zonas são caracterizadas por reunirem condições propícias à reprodução e ao desenvolvimento do principal vector de transmissão da malária, o mosquito. As condições climáticas são consideradas propícias à transmissão da malária quando a precipitação mensal acumulada é de pelo menos 80 mm, a humidade relativa de pelo menos 60% e temperaturas mínima e máxima que variem entre 18ºC e 32ºC. Essas condições são baseadas em consensos de literatura, porém, na prática as condições de transmissão dependem em particular da espécie do vector transmissor e do parasita.

A precipitação é responsável por criar condições que permitem a existência suficiente de águas superficiais (charcos, lagoas etc.) para a colocação de ovos e é o principal factor para a transmissão da malária. A temperatura por sua vez também desempenha um papel importante na variabilidade da transmissão da malária, regulando a taxa de desenvolvimento da larva de mosquito e influenciando a taxa de sobrevivência do mosquito adulto. 

A humidade impacta a taxa de sobrevivência, pois o mosquito não sobrevive por muito tempo em ambientes onde a humidade relativa seja inferior a 60%. Nas regiões endémicas estes três parâmetros criam condições adequadas para a transmissão da malária. 

A compreensão e o monitoramento dessas condições climáticas e sua relação com a incidência da malária é de vital importância para limitar os impactos da doença. 

As aplicações para a obtenção de mapas de risco de transmissão da malária baseiam-se no processando de dados de precipitação, humidade relativa e temperaturas máxima e mínima, obtendo como produto final mapas que alertam as autoridades sobre o risco de existência de condições propícias para a transmissão da doença uma determinada província, município ou comuna. Os mapas ajudam no planeamento das acções a levar a cabo para o combate à causa-raiz da doença (o mosquito), focando os esforços nas já conhecidas zonas que reúnem condições para reprodução e desenvolvimento dos mesmos.

O mapeamento das zonas de risco sugere boas soluções ao Governo ou ao Ministério da saúde no combate e a erradicação da malária, munindo-os de informações importantes sobre os riscos de transmissão.

  

Autor:

 

Massala Samuel Nsungani, Mestre em Aplicações Espaciais e Serviços

Director da Área de Planeamento de Voo do Centro de Controlo e Missão de Satélites da Funda